BARBOSA LESSA, QUATRO ANOS DE SAUDADES

Quatro anos depois e a amizade continua cada vez mais forte...
Ele deixou de ser a pessoa na cadeira ao lado, durante o jantar de confraternização. Não é mais aquela voz serena no outro lado da linha. Deixou de "ter" uma referência geográfica-temporal e passou a "ser" uma dimensão universal.
Agora ele está no perfil do homem que passa no carro ao lado, na pausa do aluno ao esperar a resposta à pergunta feita, no aperto de mão sincero e, ao mesmo tempo, firme e suave, do desconhecido que agradece uma gentileza na fila do banco.
Barbosa Lessa, o irmão, ultrapassou o "aqui" e o "agora", para se tornar o "sempre". Fez do encontro ocasional, presença diária. Fez das visitas do final de semana, acompanhamento constante. E tudo isso, graças à amizade. Amizade que reuniu estes dois homens de bem: o professor Schil e o escritor-regionalista-amigo-para-todas-as-horas, Luis Carlos Barbosa Lessa.
Desde o seu falecimento, em 11 de março de 2002, a relação entre estes amigos tornou-se ainda mais forte. Prova de que o tempo e o espaço não podem vencer nem a amizade nem a comunicação.
Leia o último escrito de Barbosa Lessa. O prefácio para o livro Kaiuá. Prefácio este que, depois de 65 obras publicadas, quis o destino que Lessa escrevesse para o livro do amigo, do melhor amigo...

Nina Veiga

Prefácio

Revivendo o maior dom humano

Barbosa Lessa

Eu ainda era uma criança quando, nas aulas de 2º grau, os professores me ensinaram como viviam os gregos da Antigüidade e, assim, fiquei conhecendo uma quantidade de deuses que não acabava mais. Pelo que entendi, cabia mais a eles, do que a nós, a solução de nossos problemas pessoais.
Depois, cursando a Faculdade de Direito, as aulas de Direito Romano me puseram em contato com uma sociedade modelar onde havia uma quantidade de leis que não acabava mais. Pelo que entendi, cabia mais aos legisladores e aos juízes, do que a nós, a escolha do rumo certo para seguir na vida.
Preocupado em me fazer um “doutor” em assuntos gregos e romanos, pois a escola jamais apontou como modelo as minhas próprias raízes, foi em caráter particular, e meio por acaso, que vim a colher as informações básicas sobre meus avoengos guaranis. Que gente notável! Verdadeiros mestres na arte de organizar a vida sem o apelo a deuses complicados e a leis complicadíssimas.
Tudo muito simples, efetivamente. Como forças sobrenaturais, apenas quatro, suficientes para manter o equilíbrio do mundo: Iara (nas águas), Caapora (nas matas), Ceucy (nas lavouras) e Tupã (nos céus, zelando pela chuva necessária às outras três forças). E, como lei única, o Kaiuá.
Kaiuá, o Dom da Palavra. O maior dom humano, por ser o único que realmente nos diferencia dos outros animais. A capacidade de expressar com clareza o pensamento e o sentimento. A bússola para encontrar caminhos e o farol capaz de lumina-los.
Foi uma pena que tal sociedade tenha pago o mais alto preço diante dos ambiciosos canhões de Portugal e Castela.
Os embaixadores ibéricos sequer quiseram ouvir os caciques autóctones, confundindo-os como uma espécie de imperador ou manda-chuva, quando, em verdade, eram simples porta-vozes excepcionalmente escolhidos para a transitória missão de falar diante de terceiros. O guarani não tinha chefes propriamente ditos. E seus próprios caciques não tiveram mais com quem falar. Sumiram do mapa.
Mas, eis que, agora, nos aparece este admirável casal que – mesmo sem o pretender – assume uma força de ressurreição do Kaiuá guarani: o cacique Schil e a “cacica” Cheila. Embora já nos seja muito difícil apagar de todo os mitos da Grécia, as leis de Roma e o labirinto do mundo moderno, que ao menos nos seja dada a oportunidade de tentar reencontrar a fortaleza perdida.
Certamente, nossa língua também permite que a gente possa falar corretamente, no momento exato, com a aconselhável postura, em alto e bom som, sem trair de modo algum o pensamento e o sentimento. Com firmeza e doçura.

Schil e Cheila estão nos chamando...
“Tchá-há!” (Vamos lá!)



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